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O projeto busca, atuando desde a sociedade civil, favorecer a estruturação de percursos autônomos e independentes nas artes, contribuindo assim para a criação de novas perspectivas e estratégias de promoção da diversidade cultural em um espaço marcado pelo histórico silenciamento de culturas milenares e onde diversas línguas estão ameaçadas de extinção. Contribuindo para criar novas perspectivas e estratégias para a cooperação cultural internacional e para a diplomacia cultural, o Circulador alinha-se ao recente comprometimento, expresso na XII Conferência de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em Santa Maria, Cabo Verde, com a promoção da mobilidade dos artistas, dos criadores, e de suas obras dentro do espaço da comunidade, com a partilha de informação sobre as políticas nacionais culturais, sobre a legislação em matéria de circulação de bens, serviços e empreendimentos culturais, sobre os dados estatísticos relativos às atividades culturais e sobre o seu impacto na economia e na sociedade, assim como com o estado de adesão e de implementação das convenções da UNESCO, em particular as de proteção e de salvaguarda do património cultural material e imaterial, de promoção da diversidade das expressões culturais e de proteção de direitos de autor e de direitos conexos, ratificadas pelos Estados-Membros.

Defendendo uma maior integração desse espaço complexo, o projeto enquanto plataforma busca estimular capacidades econômicas e culturais que desafiem a exclusividade da cooperação cultural do eixo Norte-Sul, promovendo um encontro e um diálogo multidimensional mais constante entre os indivíduos da CPLP.

A CPLP é uma organização internacional para a concertação político-diplomática e para cooperação, e fórum multilateral privilegiado para o aprofundamento das relações de amizade entre os países de língua oficial portuguesa, com sede em Lisboa, Portugal. Criada em 1996, a organização reúne hoje 9 países como Estados-membros plenos, sendo eles Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Atuando nos domínios social, cultural e econômico, busca promover a coordenação sistemática das atividades das instituições públicas e entidades privadas empenhadas no desenvolvimento da cooperação entre seus países.

A CPLP agrupa países localizados na América do Sul, África, Europa e Ásia, reunindo uma população de mais de 270 milhões de habitantes, em 10.742.000 km2, com uma vasta plataforma marítima de 7 milhões de km2 entre três oceanos e aproximando importantes espaços internacionais de integração regional como o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), a União Européia (UE), a Comunidade Econômica do Estados da África Ocidental (CEDEAO), a Comunidade Econômica dos Estados da África Central (CEEAC), a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e a Associação de Países do Sudeste Asiático (ASEAN).

Completando 23 anos em 2019, a entidade cresceu e alargou horizontes. Enquanto organização, é hoje um importante instrumento, cuja relevância tem tido acrescida importância ao longo dos últimos anos, com um número expressivo de países vindo a solicitar a obtenção da categoria de observador associado e entidades da sociedade civil dos países membros a de observador consultivo.

Foram muitos e significativos os contributos da organização ao longos das últimas duas décadas e é inquestionável sua importância como recurso estratégico para atuação de seus Estados-membros na política internacional e para a projeção coletiva de seus interesses. De igual maneira, a organização tem mostrado grande potencial em servir também como relevante instrumento para o desenvolvimento interno de seus países, que apresentam grandes assimetrias e disparidades em seus níveis de desenvolvimento econômico, aliando-se a agências e instrumentos da Organização das Nações Unidas (ONU) como a FAO ( Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), a UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e a própria UNESCO.

Crônico é, entretanto, o descolamento da organização das sociedades que visa representar. A CPLP ainda é pouco conhecida e reconhecida entre a maior parte de seus habitantes, e são poucos os canais efetivamente construídos para que um diálogo maior e mais constante possa ocorrer entre seus cidadãos, conectando, de fato, esse amplo e descontínuo espaço geocultural, e trabalhando para a construção da noção de comunidade e cidadania. Avanços foram feitos em distintas pautas, e a mobilidade no âmbito da comunidade é questão de primeira ordem, tratada com a devida importância, mas que se depara com significativos desafios.

A CPLP continua sendo uma organização da alta política em que as decisões são feitas a portas fechadas e pouco é o diálogo e a interação direta com a sociedade civil. O projeto do Circulador surge com o objetivo de atribuir rostos a essas políticas que são discutidas nas mais altas esferas de governo, contando histórias que desenhem percursos e travessias e evidenciem a criação de redes e pontes, traduzindo mais cruamente a realidade e as pessoas sobre as quais tais políticas e decisões governamentais ultimamente recaem.

O projeto Circulador pretende editar periodicamente publicações que sirvam de suporte para a identificação e para a exposição da juventude dos países de língua portuguesa e de sua produção em distintos setores das indústrias culturais e criativas. Conformando ferramenta para que esta comunidade possa se reconhecer e identificar como tal, as diferentes edições funcionam também como espaço para pautar a reflexão sobre as políticas culturais de integração deste espaço de língua partilhada. Editadas em diferentes projetos, com formatos variados, operam também como suporte para experimentação em pesquisa. Disponibilizadas integralmente em formato digital, são oportunamente impressas, sempre que os recursos financeiros existirem, com o objetivo de criar uma coleção contemporânea que verse sobre a produção e as políticas culturais internacionais deste espaço, que possa vir a integrar acervos e bibliotecas de instituições em todos os países da comunidade, circulando em espaços diversos.

A primeira publicação do projeto contou com recursos da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, Brasil, através do Programa de Ação Cultural (ProAC) para sua realização e apresenta pesquisa sobre os jovens adultos que já estão a circular pelo espaço da CPLP, expondo através de suas práticas profissionais e histórias particulares os fluxos e mecanismos de troca já existentes, para então buscar entender as possibilidades e potencialidades de uma maior integração cultural e econômica.

Redes Culturais na CPLP é fruto de pesquisa desenvolvida ao longo dos anos de 2018 e 2019 sobre a presença de jovens atuando em distintos setores da cultura, como a Música, as Artes Plásticas e Visuais, a Poesia e Literatura, a Dança e o Teatro, e residindo, a mais ou menos tempo, temporária ou permanentemente, na cidade e Estado de São Paulo, Brasil. Esse grupo que reúne homens e mulheres entre 21 e 39 anos, vindos de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e Timor Leste serve como um retrato do atual quadro de integração e de intercâmbio nesse vasto descontínuo geográfico. Tecem-se aqui, através de conversas abertas os percursos destes artistas, evidenciados através de suas práticas profissionais no mundo e na cidade de São Paulo, ligando os pontos de uma complexa rede de trocas e influências intercontinentais na maior metrópole de língua portuguesa do mundo.

São conversas e relatos que ajudam a delinear um espaço que julgamos ainda pouco pautado no campo da cultura, cujos fluxos de troca e reconhecimento ainda são tímidos, ou muito desiguais. Apresentando recortes específicos, olhares e perspectivas particulares sobre realidades espalhadas pelo tempo e espaço, são conversas que nos contam um pouco sobre universos individuais, dando contornos sinceros sobre esta comunidade transnacional, ainda pouco consciente de si. Não buscam assim estes capítulos, em nenhum momento, serem definitivos ou conclusivos. Trata-se de um diagnóstico propositivo, que deixa espaço ao pensamento e expressão de oito homens e mulheres diferentes em suas trajetórias, opiniões e aspirações.

A partir deste recorte, buscou-se compreender e analisar a estrutura e o alcance das políticas culturais e do arcabouço institucional nesse território a partir das práticas dos indivíduos, observando e confrontando os principais entraves e êxitos dos fluxos já existentes na heterogênea comunidade artística da CPLP. Pretende-se com isso também apresentar contributo à construção e ao desenvolvimento dessa comunidade marcada por antagonismos e provocar reflexões nos agentes institucionais que formulam políticas para essa região, assim como na sociedade civil como um todo. Mais do que discutir o fato de falarmos a mesma língua e buscar forjar uma identidade comum pautada neste fato, o Circulador recorre às diferentes vozes que compõem esse espaço linguístico para apontar as direções que a diversidade de expressões e epistemologias culturais pode oferecer. Falamos a mesma língua. E o que faremos com isso?

O ponto de intersecção das trajetórias aqui apresentadas está na cidade de São Paulo que alarga suas fronteiras e reconstrói sua cartografia a partir das experiências vividas e trazidas por essas pessoas que não apenas a escolhem como local de confluência para os seus caminhos e projetos, como, a partir dos seus trânsitos, também articulam um novo eixo para as diálogos culturais a partir do Sul.